Mordida
Cruzada Anterior Dentária: Interceptar ou Interceptar?
Anterior
Dental Cross-bite: Clinical Considerations
TANAKA,
Orlando. CD.,MO.
Unitermos
Mordida cruzada anterior dentária, interceptação,
diagnóstico.
Key
words
Anterior dental cross-bite, interceptive treatment, diagnosis,
Endereço
para correspondência:
R. Mal. Deodoro, 630, sala 1703 - CEP: 80010-912- Curitiba,
Pr. Brasil.
A
mordida cruzada anterior dentária envolvendo um ou dois dentes
permanentes é uma maloclusão comumente diagnosticada
em crianças na fase da dentição mista.
A
totalidade dos autores orienta e preconiza a correção
da mordida cruzada o quanto antes ou quando diagnosticada, e desde
que sejam observados os pré-requisitos essenciais de cooperação
no uso do aparelho recomendado e espaço suficiente para a
movimentação em direção à linha
de oclusão.
A
interceptação em Ortodontia implica que uma situação
anormal existe5. É o período em que a ciência
e a arte, empregadas na Ortodontia para reconhecer e eliminar potenciais
irregularidades e malposições no complexo dentofacial
em desenvolvimento3,5, devem ser criteriosas.
ABSTRACT
The
anterior dental cross-bite involving one or two permanent teeth
is a malocclusion diagnosed in mixed dentition. The authors guide
and extol the correction of cross-bite early or when diagnosed and
the essential pre-requirement of cooperation and enough space for
moving to the line of occlusion must be observed. Interception in
Orthodontics implies that an abnormal situation exists. It is a
period that the art and science used in Orthodontics to recognize
and eliminate potential irregularities and malposicioned teeth in
development of the dentofacial complex must be critical.
INTRODUÇÃO
A
mordida cruzada anterior dentária, na fase da dentição
mista, destaca-se nos exames de rotina de clínicos gerais,
odontopediatras e fonoaudiólogos. Do ponto de vista da oclusão,
cabe ao clínico geral a identificação, o diagnóstico
e até mesmo a interceptação desta maloclusão,
embora, sempre que possível, devam estar sob orientação
de um ortodontista 2.
Em
crianças muito jovens é recomendado que o tratamento
seja adiado para maior efetividade na interceptação
9.
REVISÃO
DA LITERATURA
A
mordida cruzada anterior pode apresentar fator predisponente no
desenvolvimento de maloclusão de Classe III, se dois
ou mais dentes estão envolvidos. Recomenda-se conferir a
relação molar em relação cêntrica
e máxima intercuspidação habitual 4. É
essencial a diferenciação entre uma mordida cruzada
localizada e com característica de maloclusão mais
generalizada 11.
Quando
se diagnostica uma maloclusão decorrente de fatores hereditários
ou padrões intrínsecos e extrínsecos, certos
procedimentos clínicos devem ser tomados para diminuir a
severidade da maloclusão e, em alguns casos, eliminar a sua
causa 5 . E, na fase de dentição mista, a mordida
cruzada anterior dentária destaca-se nos exames clínicos
de rotina dos consultórios de clínicos gerais, odontopediatras
e fonoaudiológos. Do ponto de vista da oclusão, cabe
ao clínico geral a identificação, o diagnóstico
e até mesmo a interceptação desta maloclusão.
O
ortodontista, infelizmente, não consegue examinar a criança
no momento da instalação da mordida cruzada.
A
totalidade dos autores orienta e preconiza a correção
da mordida cruzada o quanto antes, desde que os pré-requisitos
essenciais de cooperação no uso do aparelho recomendado
e espaço suficiente sejam observados. Figuras B-3 e B-4.
A
mordida cruzada anterior dentária (Figs. B-1 e B-2) resulta
de inclinações axiais anormais dos dentes ântero-superiores
8, ou quando um ou mais dentes superiores fizeram a sua erupção
lingualmente em relação aos dentes inferiores com
os quais deveriam fazer oclusão 15, quando a mandíbula
está posicionada em máxima intercuspidação
5. Os molares permanentes em Classe I e todas as características
são de Classe I de Angle 1.
CONDUTA
CLÍNICA
A
conduta clínica em relação ao aparelho a ser
utilizado deve levar em consideração o número
de dentes envolvido, e a correção deve ser realizada
na maxila, onde se encontra o dente malposicionado. 3,12
Desde que se assuma ser um problema local e com espaço suficiente
para o alinhamento do dente envolvido, vários aparelhos podem
ser sugeridos.
Pretende-se
sugerir que os procedimentos interceptativos podem ser de fácil
execução (caso B). Por outro lado, a interceptação
pode exigir conhecimentos de mecânica ortodôntica, empregada
nos aparelhos ortodônticos fixos (caso C).
Supõe-se
que seja mais fácil a interceptação das mordidas
cruzadas anteriores ainda em desenvolvimento (caso A) que após
a completa instalação. Se o clínico geral for
feliz em antecipar a erupção de um incisivo superior
em posição lingual, pode orientar o paciente, pais
e/ou responsáveis para posicionar um palito de madeira, de
sorvete ou abaixador de língua (Figuras A-1, A-2, A-3 e A-4),
de maneira a descansar/apoiar sobre a superfície vestibular
opondo ao dente em mordida cruzada.
Caso
A: Figura A-1, A-2, A-3 e A-4. Orientação do palito
sob o incisivo central superior esquerdo. Veja área de isquemia
na gengiva marginal dos dentes 21 e 22 devido à pressão
leve e constante.
Com
a superfície incisal funcionando como fulcro, a porção
intra-oral do palito é girada para cima e para frente, envolvendo
a superfície lingual do dente malposicionado (inclinado lingualmente).
Recomenda-se o uso do palito de 1 a 2 horas diárias, e cada
aplicação não deve exceder 5 a 10 minuto.
Um período de 10 a 14 dias, em frente à TV, é
suficiente para desviar o dente erupcionado lingualmente para o
outro lado da cerca em relação normal
5. O paciente deve manter leve porém constante pressão
com as mãos sobre o palito para evitar deslocamento do mesmo.
O
aparelho removível superior preconizado (Figs. B-5 a B-8
) é constituído por 6 grampos de retenção,
sendo 4 circulares ou circunferenciais e 2 arandelas ou interproximais
e uma (caso com 1 dente em mordida cruzada) mola digital dupla hélice
em cantilever (figs. B- 7 e B-8), todos envolvidos
em acrílico autopolimerizável e com
Caso
B: Figuras B-1, B-2. Mordida cruzada dentária
do 12. Vista frontal e lateral. Figuras B-3 e B-4. Espaço
presente é suficiente para o posicionamento do 12 na linha
de oclusão. Batente oclusal ou plano de mordida (Figuras
B-5 e B-6). Quando o dente está totalmente irrompido ou quando
a sobremordida é excessivamente profunda,9 este plano ou
batente tem o objetivo de eliminar o bloqueio provocado pelo
cruzamento e deve ser utilizado apenas durante a fase de movimentação
do dente cruzado5 . A mola deve ser flexível ao máximo,
para movimentar os dentes envolvidos em direção vestibular.
Caso
B: Figuras B-5 e B-6. Aparelho removível instalado
com batente oclusal ou plano de mordida. Figuras B-7 e B-8. Desenho
da mola digital dupla hélice em cantilever.
As
recomendações gerais quanto à higiene bucal
e ao uso do aparelho são repassadas para o paciente e/ou
responsáveis. A ativação deve ser realizada
no momento da instalação do aparelho e quantas vezes
forem necessárias. É uma interceptação
mecânica, mais voltada para a clínica geral (Figuras
B-9 a B-14).
Caso
B Vista lateral direita. Figura B-9. Mordida cruzada diagnosticada.
B-10. Após a sobrecorreção. B-11. Erupção
dos caninos superiores e inferiores. B-12. Fase final da dentição
mista. Observar normalidade no contorno gengival do rebordo alveolar
do 12 descruzado 6.
Caso
B Vista frontal. Figura B-13. Mordida cruzada diagnosticada;
B-14. Após a sobrecorreção; B-15. Erupção
dos caninos superiores e inferiores; B-16. Fase final da dentição
mista.
O
aparelho fixo tem grande limite de ação e libera forças
mais contínuas em relação aos aparelhos removíveis,
reduzindo alguma necessidade de cooperação do paciente.
Permite controle tridimensional do dente a ser movimentado.
Caso
C Figura C-3. Vista frontal. 21 em giroversão
exagerada; C-4. Vista oclusal. C-5. Acessórios colados nos
dentes 11 e 21; C-6. Bandas ortodônticas nos dentes 16 e 26.
Preconiza-se
o aparelho fixo edgewise 10,11,14, constituído
de duas bandas ortodônticas nos primeiros molares permanentes
e acessórios nos dentes anteriores, em mordida cruzada. Figuras
C-5 e C-6.
Um
arco inicial com fio de aço inoxidável flexível
ou múltiplas alças pode ser
Caso
C Figura C-7. Vista frontal, 21 corrigido; C-8.
Após a remoção dos acessórios ortodônticos;
C-9. Na fase da dentição permanente; C-10. Alinhamento
do 21 mantido. Usado para movimentação do dente envolvido
para a linha de oclusão (figuras C-5 e C-6) É uma
interceptação ortodôntica, voltada
para o ortodontista (figuras C-3 a C-10). O posicionamento e controle
dos dentes nos três planos do espaço requerem planejamento
cuidadoso e domínio da técnica. Se necessário,
deve-se preconizar uma segunda fase de tratamento ortodôntico
na fase da dentição permanente.
Os
casos clínicos B (mordida cruzada do dente 12) e C
(giroversão acentuada do dente 21) foram interceptados, somente
na fase da dentição mista, quando diagnosticados.
Após a remoção e suspensão do uso dos
aparelhos foi realizado o acompanhamento clínico e radiográfico
da dentição e da oclusão.
CONCLUSÃO
Para
dominar a técnica na prática da Ortodontia interceptiva
de quaisquer maloclusões, o profissional deve concatenar
e organizar tridimensionalmente os conhecimentos teóricos
e práticos com vistas a proporcionar aos pacientes: saúde,
estética, função e estabilidade do complexo
dentofacial.
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Este
artigo está publicado no Jornal Brasileiro de Ortodontia
& Ortopedia Facial, Editora Maio (fone/fax: 041332-2995), de
Julho/Agosto de 1998. |