Dr. Orlando Tanaka
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Diastema Interincisivos Centrais Superiores
Versus Freio Labial: Fatos e Falácias

Tanaka, Orlando

O diastema pode ser definido como a ausência ou falta de contato entre dois ou mais dentes consecutivos. A visualização deste espaço entre os incisivos centrais superiores, na fase da  dentição  mista é causa de preocupação seja para o paciente, pais ou responsáveis e, principalmente, para o profissional. Há quem goste e até considere sexy, bonito, porém, tê-lo não é normal. É, aliás, uma anormalidade na dentição permanente. Em realidade, um diastema em uma região tão visível é desagradável somente do ponto de vista estético e psicológico, porque, funcionalmente, reduz pouco ou nada, a eficiência mastigatória.

O freio labial permanece como um dos agentes etiológicos na formação e manutenção do diastema na dentição permanente. Ainda hoje a controvérsia persiste pois alguns profissionais insistem  em considerar o freio como anormal e que este deve ser removido cirurgicamente e há os que asseguram que  raramente tal procedimento deve ser realizado.

O freio labial é uma prega de membrana mucosa ricamente vascularizada, tem o tecido conjuntivo coberto por epitélio (Caremello, 1953), e  contém uma quantidade variável de tecido fibroso; o seu tamanho varia de indivíduo para indivíduo, mas não deve ser denominado de “músculo” ou “ligamento”(Dewel,1943). Na fase pré-dental, e na dentição decídua o freio está inserido na superfície (região palatal do rebordo alveolar na linha mediana) e se estende para cima, em direção à superfície interna do lábio superior, de maneira que uma tração do lábio superior promoverá um tensionamento dos tecidos lingualmente localizados aos incisivos centrais superiores. À medida que o desenvolvimento da dentição e da oclusão acontece a inserção palatal, gradualmente, “sobe ou migra” em direção do labiol e na dentição permanente o freio encontra-se, normalmente, inserido a cerca de 0,5mm, acima da margem gengival (Taylor,1939). Frequentemente, o freio labial está confinado a uma faixa estreita e não é forte o suficiente para impedir o posicionamento correto dos incisivos. Portanto, em alguns pacientes o freio apresenta-se firme, tenaz, forte e  atuando como uma barreira à migração mesial dos incisivos durante a erupção, mantendo um considerável diastema (Graber,1972).

O diastema é devido a presença do freio labial ou a presença do freio é devido ao diastema. Segundo Graber, não é possível resolver o dilema do “ovo e da galinha”.

 Em um diastema hereditário não quer dizer que se os pais (um ou outro) apresentam diastema entre os  incisivos centrais, a criança/filho também o terá. Nem o fato de o freio estar entre os incisivos espaçados prova ser a causa do espaço.

Muita vezes não há qualquer pressão sobre os incisivos centrais em direção a linha média (por envolvimento devido a outras etiologias).

Do ponto de vista hereditário, há uma forte tendência para reabertura do diastema mesmo após o fechamento ortodôntico e retenção/contenção prolongada do espaço fechado. Mesmo quando as fibras do freio são dissecadas da sua inserção lingual.

Se o diastema for caracterizado como hereditário, sugere-se, como ortodontia preventiva, dissecção cuidadosa das fibras do freio por sobre a crista do rebordo alveolar. Em muitos casos os incisivos centrais migrarão fisiologicamente a medida que os caninos irromperem.

 A erupção dos incisivos centrais superiores com diastemas e em graus variados ocorre em 97% dos casos. É uma condição normal, uma vez que estão separados pela sutura palatina mediana.(Lewis, in Taylor,1939). Com a erupção dos incisivos laterais o diastema pode manter-se ou até diminuir parcialmente e com a erupção dos caninos em direção à linha de oclusão (Angle, 1907), o diastema fechar completamente.

Nos casos de freios realmente hipertróficos, recomenda-se, inicialmente, o fechamento do diastema e, após frenectomia, se necessário (Bishara,1972; Proffit,1986; Moyers,1952), embora o processo natural de crescimento e desenvolvimento possa remediar a maioria dos casos de freio labial hipertrófico (Broadbent,1941; Richardson,1973), a frenectomia, eventualmente, remove algum obstáculo para o fechamento espontâneo do diastema, porém isto é necessário, somente em poucos casos (Popovich,1977)

Existem mais fatores causadores de diastemas, além do freio labial. Tais como: Microdontia, macognatia, dentes supranumerários (especialmente mesiodens), incisivo lateral conóide, agenesia de incisivo lateral, cisto na região da linha média, hábitos como a sucção de dedo, interposição lingual e interposição labial (Weber, 1962), malformações dentárias; condições patológicas, hereditariedade (Conrad,1969; Moyers,1952), disfunções endócrinas, agenesias de dentes, protrusão dos dentes ântero-superiores, incisivos laterais conóides, discrepâncias dento-esqueléticas (Taylor,1939), coalescência imperfeita do septo interdentário (Araújo,1988) entre outros.

Durante a erupção dos incisivos centrais superiores permanentes, observa-se um espaço entre esses dentes, iniciando a fase do “patinho feio” que, na maioria dos casos, persiste por um tempo de 3 ou 4 anos, e o seu fechamento não ocorre antes da erupção dos caninos permanentes (Broadbent,1941), é o chamado diastema fisiológico, normal no contexto do desenvolvimento da dentição e da oclusão. A remoção do freio labial é semelhante a remoção desnecessária das amigdalas que sofrerá uma involução espontânea (Wanton, in Graber,1972). Ainda hoje, muitas amigdalas são removidas.

 Muitas frenectomias ainda são realizadas sem que nenhum diagnóstico diferencial seja realizado, algumas vezes por desconhecimento das etiologias dos diastemas em outras por falta de paciência para “dar tempo ao tempo”. Nos casos de dúvidas, deve-se aguardar até a erupção total dos caninos para preconizar se estritamente necessária, a frenectomia.

Milhares dos chamados freios anormais foram desnecessariamente removidos e é necessário pôr um fim no “massacre dos inocentes” (Taylor,1939). Portanto, cabe ao cirurgião dentista realizar o diagnóstico adequado e preconizar a correta interceptação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. ANGLE, E. H. Treatment of Malocclusion of the Teeth. 7. ed. Philadelphia: S.S. White Co. 1907.  628p.
  2. ARAÚJO, M. C. M. Ortodontia para clínicos. Programa pré-ortodôntico. 4. ed. São Paulo: Ed. Santos, 1988, 286p.
  3. BISHARA, S. E. Management of diastemas in orthodontics. Am. J. Orthod., St. Louis, v. 61, n.   p. 55-63,  1972.
  4. BROADBENT, B. H. Ontogenic development of occlusion. Angle Orthod., Appleton, v. 41,n.  m p. 223-241, Oct. 1941.
  5. CEREMELLO, P. J. The superior labial frenum and the midline. Am. J. Orthod., St. Louis, v. 39, n.    , p.120-137,    1953.
  6. CONRAD, G. M.  Combination of factors involved. Oral Health,   v. 59, p. 29, May 1969.
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  8. GRABER. T. M. Orthodontics. Principles and Practice. 3. ed. Philadelphia,  W. B. Saunders Co.  p. 627-708, 1972.
  9. MOYERS, R. Spacing between the maxillary central incisors. Alpha Omega. v. 46, p. 80-82, 1952.
  10. POPOVICH, F., THOMPSON, G. W., MAIN, P. A. The maxillary interincisal diastema and its relationship to the superior labial frenum and intermaxillary suture. Angle Orthod., Appleton, v. 47, n. 4, p. 265-271, Oct. 1977.
  11. RICHARDSON, E. R., MALHOTRA, S. K., HENRY, M. et al. Biracial study of the maxillary midline diastema. Angle Orthod., Appleton, v. 43, n.  p. 438-443,  1973.
  12. TAYLOR,J.E. Clinical Observation relating to the normal and abnormal frenum labii superioris. Am. J. Orthod., St. Louis, v. 25, n. 7, p. 646-650, July. 1939.
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