O
DILEMA DOS CANINOS SUPERIORES IMPACTADOS
The
dilemma of impacted maxillary canines
TANAKA,
Orlando. CD.,MO.
Professor Titular do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da
PUCPR
Rosemári Fistarol Daniel
Sabine W. Vieira
Mestres em Odontologia (Ortodontia) pela PUCPR
RESUMO
A
impactação de caninos superiores é um acontecimento freqüente, especialmente
na região palatina, ainda que na presença de espaço suficiente para
o seu alinhamento na arcada dentária. Pode ser causada por fatores
de ordem geral ou local, sendo que seu diagnóstico deve ser realizado
por meio de exames clínico e radiográfico específicos. É fundamental
que se determine a exata localização do canino impactado a fim de
que o correto planejamento do tratamento possa ser realizado. A
opção pelo tratamento combinado cirúrgico-ortodôntico tem se mostrado
bastante eficiente, principalmente quando bem diagnosticada e executada
por meio da técnica adequada. O presente trabalho traz uma breve
revisão bibliográfica acerca de importantes fatores a serem considerados
na abordagem de caninos impactados, tais como as diferentes possibilidades
terapêuticas, suas vantagens e desvantagens, e outros fundamentos
indispensáveis para o seu posicionamento na linha de oclusão.
UNITERMOS
Caninos
superiores, impactação, diagnóstico, tratamento
SUMMARY
The
impaction of maxillary canines, specially in the palatal side, is
a very common condition, even in the presence of sufficient availiable
space for their proper alignment in the dental arch. It may be caused
by general as well as local factors and its diagnosis should be
done through detailed clinical and radiographic exams. It is essential
to determine the right location of the impacted canine in order
to permit the elaboration of the best treatment planning. The combined
surgical-orthodontic treatment is a very efficient option, once
the correct diagnosis is made and an apropriate technique is used.
The purpose of the present study is to review the current literature
on the essential basis related to the management of impacted canines,
such as the advantages and disadvantages of some different treatment
procedure possibilities.
UNITERMS
Maxillary
canines, impaction, diagnosis, management
INTRODUÇÃO
O
canino é considerado um dos dentes mais importantes tanto estética
quanto funcionalmente, porém sua impactação é bastante freqüente,
superada apenas pela do 3º molar3,7,9,11,14. Segundo DEWEL7, o canino
é o dente que completa a forma da arcada dentária, determinando
o contorno da boca, mantém a harmonia e a simetria da relação oclusal,
além de suportar, devido à anatomia da sua raiz, os movimentos de
lateralidade e a carga mastigatória. Por apresentar o desenvolvimento
e a trajetória de irrupção mais complexos de todos os demais dentes,
e também por ser um dos últimos dentes a irromper na arcada dentária
superior, admira-se que um dente com um padrão de irrupção tão complicado
possa vir a irromper de maneira natural2,7,9.
ETIOLOGIA
De
maneira geral, a etiologia da impactação de caninos pode relacionar-se
à hereditariedade, deficiências endócrinas, doenças febris e irradiação.
Quanto aos fatores locais observa-se correlação com discrepância
de tamanho dentário versus comprimento da arcada, principalmente
nos casos de impactação vestibular, retenção prolongada ou perda
prematura do canino decíduo, posição anormal do germe dentário,
presença de fenda alveolar, associado com agenesia ou alteração
de forma dos incisivos laterais superiores, anquilose, dentes supranumerários,
mucosa palatina resistente e espessa, hábitos bucais deletérios,
traumatismo, dilaceração de raiz, iatrogenias e idiopatias1,2,9,11,14.
INCIDÊNCIA
Estima-se
que a incidência da impactação de caninos varie de 0.92% a 2.2%
dos casos2, sendo 50 vezes mais freqüente na região palatina do
que na labial. Em relação ao sexo, ocorre numa proporção de 3:1
para o sexo feminino, afetando mais comumente o lado esquerdo da
arcada dentária12,9. DEWEL2 relatou a ocorrência de caninos impactados
em oclusão normal, geralmente com a presença de espaço suficiente
na arcada dentária, principalmente nos casos de impactação pelo
lado palatino, e com maior freqüência na maxila, sendo de caráter
raro na dentição decídua.
DIAGNÓSTICO
O
diagnóstico da impactação é realizado por meio dos exames clínico
e radiográfico.
Os
principais sinais a serem observados ao exame clínico são: atraso
de irrupção após a idade de 14 anos, retenção prolongada do canino
decíduo (Fig. 1), elevação da mucosa labial ou palatina, migração
distal do incisivo lateral superior, com ou sem desvio da linha
mediana2. FATSLICH9 relatou que na maioria das vezes o canino impactado
altera a posição do incisivo lateral. A ausência de elevação da
mucosa gengival em idades prematuras não deve ser tido como indicativo
de impactação, já que um estudo com 505 crianças, entre 10 e 12
anos de idade, indicou que aos 10 anos 19% das crianças não apresentavam
elevação da mucosa, aos 12 anos 5% e, mais tarde, somente 3% 8.O
exame radiográfico, que pode ser realizado por meio de radiografia
panorâmica
(Fig.
2), oclusal (Fig. 3), telerradiografia lateral (Figs. 4 e 5), ou
periapicais2 (o método de dissociação proposto por Clark pode ser
utilizado para localizar o canino impactado22), é fundamental para
se determinar a localização do canino impactado, o planejamento
do procedimento cirúrgico e do tratamento ortodôntico e, também,
para avaliar a relação do dente envolvido com outras estruturas
a fim de se evitar injúrias.
PROGNÓSTICO
Segundo
FOURNIER "et alii"10 o prognóstico da intervenção ortodôntica
dos caninos impactados depende de muitos fatores, principalmente
da posição, da angulação do canino na maxila e da possibilidade
da presença de anquilose.
CONDUTA
CLÍNICA
Uma
vez diagnosticada a impactação, deve-se optar por: nada fazer se
o paciente assim o desejar, auto- transplantação, exodontia do canino
e movimentação dos pré-molares para a posição deste, restabelecimento
da oclusão por meio de prótese, exposição cirúrgica e tratamento
ortodôntico para movimentar o dente para linha de oclusão3. Esta
última opção tem se mostrado eficiente, principalmente quando bem
diagnosticada e realizada por meio da técnica adequada.
DISCUSSÃO
O
canino superior foi considerado pela maioria dos autores como sendo
um dos dentes mais importantes na arcada dentária, fazendo-se necessário
portanto, de corretos diagnóstico e condutas clínicas nos casos
onde apresenta-se impactado.
De
maneira geral, o tratamento combinado cirúrgico-ortodôntico é uma
das opções mais empregadas nos casos onde existe um bom prognóstico.
O ortodontista, o paciente e/ou os responsáveis devem estar cientes
das vantagens e riscos do tratamento, como, por exemplo, a anquilose,
a perda de vitalidade do dente, as reabsorções do canino e dos dentes
adjacentes, a perda de tecido de sustentação e o longo tempo de
estabilidade que o caso requer 24.
De
maneira geral, procedia-se a exposição cirúrgica da coroa do dente,
o tecido gengival e ósseo eram removidos quando necessário, mantinha-se
o canal de irrupção aberto (com cimento cirúrgico) para evitar inflamações
e hiperplasia gengival e se obter o efeito analgésico e antisséptico
(Fig. 6). Recomendava-se aguardar em média 4 a 6 meses para que
ocorresse irrupção espontânea. Após o dente ter feito a irrupção
fisiológica parcial, algum tipo de acessório era cimentado (banda/onlay/inlay),
que serviria para o tracionamento do dente em questão7,9,12,14.
Recomendava-se também que se fizesse um túnel ósseo (mesmo sendo
este tipo de procedimento muito traumático) durante o procedimento
cirúrgico, a fim de diminuir a resistência do movimento de tracionamento5,14,16
.
Antes
do advento dos materiais para colagem (resinas compostas ou ionômero
de vidro) existia a dificuldade em se adaptar uma banda metálica
(ou outro tipo de acessório) ao dente para o tracionamento.
Em
relação ao procedimento cirúrgico prefere-se expor a coroa do dente
impactado tanto no lado vestibular quanto no palatino, fazer a colagem,
reposicionar e suturar o retalho sobre a coroa, a fim de que a irrupção
ocorra de forma fechada1,2,5,13,15-18,26. Desta maneira ocorre,
de maneira geral, maior preservação dos tecidos periodontais, pois
a irrupção se faz de forma mais natural. Pode-se também optar pelo
reposicionamento apical do retalho10,26. Recomenda-se que quando
necessária a remoção de tecido ósseo, realizá-la de forma conservadora,
evitando-se a remoção em excesso1-3 (Fig. 7).
Durante
alguns anos empregava-se a "técnica do laço", que consistia
na colocação de um fio de aço, durante a exposição cirúrgica, em
volta do colo do dente impactado. Este procedimento exigia uma remoção
óssea muito extensa e traumática, o que resultava em muitos casos
em anquilose e reabsorção externa do dente, sendo, portanto, desaconselhado
por BOYD4, FOURNIER "et alii"10, ODEGAARD17, SHAPIRA e
KUFTINEC20. As perfurações nas coroas dos dentes a serem tracionados
têm sido pouco recomendadas, pois a dificuldade do acesso ideal
pode incorrer em danos pulpares e destruição dentária7. Este procedimento
só é aconselhado quando há dificuldade em se fazer uma boa colagem,
implicando em um segundo acesso cirúrgico, devido à queda do acessório.
Atualmente
a técnica mais utilizada é a do condicionamento ácido e colagem
de um acessório ortodôntico (bracket, botão ou tela) sobre a coroa
do dente durante o procedimento cirúrgico2,4,5,10,13,15,17,18,21,
ligado a um fio de amarrilho em forma de ligadura ou a uma cadeia
de elástico (Fig. 8) que passará pela linha de incisão e servirá
de apoio para o tracionamento do dente em questão, posicionando-o
na linha de oclusão (Figs. 9, 10 e 11).
Diversas
são as metodologias sugeridas para o tracionamento e alinhamento
dos caninos inclusos, dentre elas os aparelhos ortodônticos fixos
ou removíveis, a utilização de ancoragem na mesma arcada ou na arcada
oposta e a utilização de forças provindas de magnetos associados
à placa removível. A utilização da arcada inferior como ancoragem
dificulta o controle da direção e da magnitude da força aplicada18.
Outra forma de tratamento seria associar o uso do dispositivo móvel
numa fase inicial e posteriormente instalar o aparelho ortodôntico
fixo para finalização do caso. Atualmente os magnetos têm sido utilizados
para o tracionamento dos caninos impactados, sendo a força aplicada
leve e natural, não necessitando de nenhuma ligação mecânica6,19,25.
A
utilização de dispositivo móvel apresenta algumas vantagens como
transferência da ancoragem para palato 10,15,18 ou arcada inferior18,
componente mais vertical quando apoiado na arco inferior, porém
apesar destas vantagens o ortodontista deve ter em mente que este
tipo de dispositivo depende da colaboração do paciente e existe
dificuldade na finalização do caso3.
De
maneira geral, o aparelho ortodôntico fixo oferece maior controle
e efetividade da força tracionadora aplicada. Além disso, na maioria
dos casos existe a necessidade de corrigir algum outro tipo de maloclusão
associada e de abrir e manter o espaço para o dente a ser tracionado,
utilizando-se acessórios específicos como molas, stops ou tubos.
Quanto
ao apoio da força para movimentação do canino impactado é recomendado
que se utilize um fio ortodôntico retangular, cuja espessura mínima
deve ser de 0.018" x 0.022", suficiente para resistir
ao movimento de tracionamento2,13,23 associado a algum reforço de
ancoragem (arco lingual superior apoiado nos primeiros molares9,12,16
ou aos dentes posteriores amarrados conjugados3).
A
literatura não é unânime no que diz respeito à quantidade de força
utilizada para o tracionamento. KORNHAUSER "et alii"13
sugerem 24 a 35 gr, MAGNUSSON16, 40 gr, BISHARA "et alii"3
recomendam uma força não superior a 60 gr, ODEGAARD17 aconselham
75 a 100gr e CRESCINI "et alii"5, 100 gr. Esta força deve
ser obtida por meio de elásticos, molas, ligadura de aço, ou dispositivo
em forma de haste (helicóide) preso no arco ortodôntico13,16,21,23.
Recomenda-se
cuidado na movimentação inicial dos caninos impactados pelo lado
palatino, sendo necessário que a componente inicial de força deste
movimento seja vertical e posterior, para que se evite danos às
raízes dos dentes anteriores. Somente após esta verticalização o
canino deve ser movimentado em direção vestibular, visando ao correto
posicionamento e alinhamento final7,13(Figs. 6 e 7).
Na
presença do canino decíduo na arcada dentária, a exodontia deste
dente poderá ser realizada durante a fase cirúrgica da exposição
do canino permanente impactado5,15,25 ou, numa fase posterior, quando
já se observar a movimentação do dente envolvido4 . Da mesma forma,
quando existir a indicação da exodontia do primeiro pré-molar, a
fim de se obter espaço para o canino, recomenda-se que a mesma não
seja realizada antes do canino apresentar sinais de movimentação,
eliminando, assim, a possibilidade de anquilose2,3,14.
CONCLUSÕES
- O
tracionamento de caninos impactados envolve a exposição cirúrgica,
o condicionamento ácido e a colagem de um acessório ortodôntico
sobre a(s) coroa(s) do(s) dente(s) envolvido(s).
- A
exposição cirúrgica da coroa dentária deve ser conservadora e
o retalho deve ser totalmente reposicionado permitindo a irrupção
fechada.
- O
aparelho ortodôntico fixo tem sido mais empregado por proporcionar
melhor controle de força evitando injúrias aos dentes adjacentes.
- O
dente deve ser movimentado utilizando-se força leve, proveniente
de amarrilho de aço, ligadura elástica ou mola.
- Não
existe uma unanimidade quanto à quantidade da força a ser utilizada
para o tracionamento (varia de 24 a 100 gramas).
- O
apoio para a força tracionadora deve estar ancorado sobre fio
ortodôntico retangular, para que ocorra mínima deflexão e menor
quantidade de efeitos indesejáveis.
- O
espaço para o canino deve ser obtido e mantido por meio de molas,
tubos, ganchos soldados, mesial e distalmente aos dentes adjacentes.
- A
exodontia do 1º pré-molar, quando indicada, somente deverá ser
realizada quando os riscos de anquilose tiverem sido eliminados.
FOTOGRAFIAS
O
DILEMA DOS CANINOS SUPERIORES IMPACTADOS

Fig.
1 Aspecto clínico evidenciando a retenção prolongada dos caninos
superiores decíduos e ausência dos caninos superiores permanentes
(13,9 anos de idade)
Figs.
2 e 3 Aspecto radiográfico ilustrando a presença dos caninos
superiores impactados na radiografia panorâmica e na radiografia
oclusal, respectivamente
Figs.
4 e 5 Aspecto radiográfico ilustrando a presença dos caninos
superiores impactados na telerradiografia em norma lateral (aparentemente
com inclinação axial favorável)

Fig.
6 Recobrimento com cimento cirúrgico da exposição dos
caninos superiores inclusos

Fig.
7 Remoção do cimento cirúrgico e visualização da exposição
cirúrgica conservadora (posicionamento profundo dos caninos)

Fig.
8 Tracionamento do canino permanente com elástico em cadeia
em direção ao espaço deixado pela exodontia do canino decíduo (não
foi possível a colagem de um acessório ortodôntico no 13, que erupcionou
espontaneamente)
Figs.
9 e 10 Aspecto radiográfico final, após o posicionamento
dos caninos na linha de oclusão, na radiografia panorâmica e oclusal,
respectivamente

Fig.
11 Aspecto clínico final com os caninos superiores permanentes
posicionados na linha de oclusão (16, 11 anos de idade)
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