Efeitos
colaterais benéficos da disjunção palatal
na fase da dentição mista
Beneficial
side effects of the palatal expansion in mixed dentition
Unitermos:
disjunção palatal, mordida cruzada anterior dentária,
efeitos colaterais
Key-words:
palatal expansion, anterior dental cross bite, side effects
SINOPSE
A
disjunção palatal traz benefícios significativos
aos portadores de mordida cruzada posterior dentária ou esquelética
e, mesmo efeitos indesejáveis como a abertura da mordida
na região anterior durante a biomecânica da disjunção
palatal, são compensados com a movimentação
de incisivos laterais em mordida cruzada para a linha de oclusão.
ABSTRACT
The
palatal expansion brings some significant benefits for those who
present posterior skeletal or dental cross bite and, even with the
side effects, as the opening of the anterior bite during the screw
activation, this effects are compensated with the correction of
the lateral incisors in cross bite.
INTRODUÇÃO
Os
procedimentos de disjunção palatal, aparentemente,
parecem ser simples e de fácil execução. No
entanto, do diagnóstico para a sua indicação
até a obtenção dos resultados desejados, todos
os detalhes devem ser observados, dos maiores aos menores. O objetivo
primordial da disjunção palatal é coordenar
as bases dentárias, o que pode funcionar como um auxiliar
importante na irrupção de dentes com retenção
ou impactação (BARNES, 1912; TANAKA, 2000). Efeitos
colaterais, como a abertura da mordida com aumento do ângulo
do plano mandibular, podem ser compensados com a utilização
de uma tração alta (HAAS, 1980), porém outros
efeitos ou modificações nas estruturas dentofaciais,
podem dar indícios e que estes são efeitos indesejáveis,
os quais, se observados atentamente, podem ser considerados benéficos
para as dentição e oclusão dentária,
como para a auto correção da mordida cruzada de um
incisivo lateral (Figs. 1D; 2J; 3D). Estes são detalhes que
não devem ser omitidos ou esquecidos.
FUNDAMENTOS
TEÓRICOS
Os
procedimentos de expansão maxilar rápida têm
sido descritos, baseados em observações clínicas,
desde ANGELL (1860); WHITE (1860); GODDARD (1893); WILLIS (1911);
WRIGHT (1912) e BROWN (1914). Após esse período, a
técnica da disjunção palatal apresentou períodos
de popularidade e desuso, não sendo utilizada por quase 40
anos nos Estados Unidos da América (GRABER et al., 1979).
Na década de 50, a técnica da disjunção
palatal foi reativada com base nos estudos de DEBBANE (1958) e HAAS
(1961), que constataram, por meio de métodos radiográficos,
a abertura da sutura palatina mediana pela aplicação
de forças ortopédicas na arcada maxilar.
Os
procedimentos de disjunção estão indicados
para os seguintes casos: deficiência real e relativa da maxila;
estenose nasal severa; classe III cirúrgica, não cirúrgica
e pseudo Classe III; fendas palatinas em adultos; casos selecionados
com problemas de comprimento de arco, para os quais é necessário
evitar extrações devido ao perfil facial; casos em
que o deslocamento da maxila é desejável em casos
com boa largura e casos de overbite exagerado, para aumentar a dimensão
vertical (ALPINER e BEAVER, 1971; BISHARA, 1987; HAAS,1961; 1965;
1970).
A
disjunção palatal está, ainda, indicada em:
pacientes com problemas crônicos de respiração
bucal, associados ao palato ogival; pacientes Classe I com mordida
cruzada e desvios funcionais; pacientes com fissuras de palato,
após o fechamento cirúrgico do lábio e do palato,
quando os segmentos posteriores se contraíram com oclusão
insatisfatória e mastigação incorreta (ALPINER
e BEAVER, 1971) e nos casos de falta generalizada de espaço
com retenção ou impactação dentária,
possibilitando a irrupção dos dentes (BARNES, 1912).
A
disjunção palatal está contra-indicada nos
casos de pacientes: não colaboradores; com um único
dente em mordida cruzada; com mordida aberta anterior e plano mandibular
alto; com perfil convexo; com assimetria esquelética da maxila
e/ou mandíbula; adultos com discrepâncias esquelética
vertical e ântero-posterior severas (BISHARA e STALEY, 1987).
Alguns
efeitos desagradáveis podem ser controlados com o uso de
uma mentoneira com puxada vertical e com força anterior vertical,
como evitar rotações para baixo e para trás
da mandíbula, que acompanham a expansão do palato
e que é que são particularmente indesejável
no padrão esquelético de mordida aberta anterior (HAAS,
1970; 1980).
Porém,
alguns efeitos podem ser considerados desejáveis em casos
que apresentam mordida cruzada de incisivos laterais associada à
mordida cruzada posterior (Figs. 1A; 2A; 2G; 3A). A abertura da
mordida anterior possibilita a quebra do equilíbrio entre
a musculatura de contenção externa, representada pelos
orbiculares dos lábios superior e inferior, e a de contenção
interna, representada pela língua. A ação da
língua, potencializada pelo seu posicionamento diferenciado,
devido à porção do acrílico que ocupa
o seu espaço livre, atua sobre o incisivo posicionado isoladamente,
e em mordida cruzada. Durante e após a biomecânica
da disjunção, esse incisivo pode ser movimentado para
a linha de oclusão sem a interferência direta de forças
ortodônticas (Figs. 2C; 2F; 2N; 3F).
A
correção das mordidas cruzadas posteriores, na fase
da dentição mista, oferece vantagens no redirecionamento
do desenvolvimento dos dentes para posições mais adequadas
normalizando, assim, assimetrias de posição condilar
e de padrões de fechamento vertical da mandíbula,
diminuindo a possibilidade de interferências oclusais e eliminando,
ou suavizando, fatores considerados prejudiciais ao desenvolvimento
anatômico e funcional das estruturas envolvidas (BELL, 1982;
HAAS, 1970; HERSHEY et al, 1976; ISAACSON e INGRAM, 1964; MOSS,
1968; SARVER e JOHNSTON, 1989) na fase mais intensa de crescimento
e desenvolvimento craniofacial, quando ocorrem mudanças significativas
na biogênese da dentição e da oclusão,
o que possibilita uma melhora na sua função (ALPINER
e BEAVER, 1971).
Os
aparelhos disjuntores aumentam a largura da arcada maxilar com uma
combinação de componentes ortopédico-ortodônticos
durante a fase da dentição decídua, mista e
permanente jovem e, nesse processo, os incisivos centrais superiores
separam-se entre o nono e o décimo segundo quarto de volta,
efetuado no parafuso do torno de expansão (ZIMRING e ISAACSON,
1965). Mas, por estarem ligadas pelas fibras transeptais, seguindo
essa separação, as coroas convergem para a mesial,
buscando o contato interproximal. Quando as coroas entram em contato,
a tração continuada das fibras causa a convergência
das raízes para as suas inclinações axiais
originais (ANGELL, 1860; GODDARD, 1893; WALTERS, 1975; GLASSMAN
et al., 1984; HAAS, 1961; 1970; 1980; BISHARA e STALEY, 1987), aumentando,
também, o espaço entre os dentes para o posicionamento
de incisivos laterais em mordida cruzada (Figuras 1A a 1F; 2A a
2N; 3A a 3F).
A
expansão rápida da maxila não pode ser considerada
um procedimento simples, visto que atua na face média do
indivíduo. É um procedimento capaz de restabelecer
as dimensões transversais da maxila e de sua arcada dentária,
por meio da abertura da sutura palatina mediana associada às
reações ortopédicas em outras estruturas do
complexo craniofacial (HAAS, 1980). Inicialmente, as tensões
produzidas pelas primeiras ativações do torno do disjuntor
palatal estão concentradas na região anterior do palato,
no nível dos processos alveolares, porém, após
sucessivas ativações, as suturas frontonasal, frontomaxilar,
frontozigomática, zigomáticomaxilar, temporozigomática
e pterigopalatina apresentam intensa atividade de remodelação
óssea ( DROSCHL, 1975; STARNBACH et al, 1966; MENDES, 1997),
com magnitude de forças geradas nas ativações
do torno de expansão em 1/4 de volta por dia, entre 1,088
Kgf a 4,671 Kgf (ISAACSON e INGRAM, 1964; ZIMRING e ISAACSON, 1965).
CONSIDERAÇÕES:
Os
incisivos superiores tendem a se movimentar inferior e posteriormente
(SARVER e JOHNSTON, 1989), movimentação esta seguida
de extrusão e translação (STUANI, 1992; 1995),
que contribui para o fechamento do diastema e o encurtamento do
arco superior (BISHARA e STALEY, 1987; HAAS, 1965; WERTZ, 1970).
Essa descrição contraria a afirmação
de OWEN (1987) segundo a qual a disjunção palatal
é eficiente para movimentar os incisivos superiores para
vestibular.
A
separação da sutura palatina mediana traz benefícios
para os portadores de atresia maxilar, mas traz também efeitos
pouco desejáveis, como a mordida aberta e recidivas, sendo
a melhora da respiração nasal somente temporária
(GRABER e SWAIN, 1979; HAAS, 1970; ISAACSON e MURPHY, 1964; WERTZ,
1970).
O
primeiro relato científico abordando a disjunção
palatal foi de ANGELL (1860), em que afirmou categoricamente: "no
nosso modo de tratar irregularidades, não apenas separamos
os ossos maxilares, mas também afirmamos, sem medo de errar,
que este é o acontecimento de maior importância neste
ramo da especialidade da Odontologia, fazendo com que casos complexos
se tornem bastante simples, economizando o tempo do profissional
e diminuindo a dor do paciente".
Passados 141 anos, a verdadeira disjunção palatal,
por ser autêntica, permanece, contrariando os modismos que
são efêmeros. O disjuntor palatal, mesmo na era tecnológica
em que vivemos, continua sendo único e sustentado por um
argumento poderoso, que é o de oferecer resultados ortopédicos-ortodônticos
quase que imediatos. Entretanto, não se deve esperar que
o aparelho "faça e resolva" tudo, corrigindo "num
passe de mágica" qualquer maloclusão. Todos os
elementos de diagnóstico devem ser clara e minuciosamente
analisados, sendo a análise baseada em conhecimentos clínicos
e científicos, pois nem todos os pacientes com mordida cruzada
querem se submeter a um tratamento ortodôntico.
CONCLUSÃO
A disjunção palatal permite corrigir discrepâncias
maxilares transversais e, indireta e satisfatoriamente, discrepâncias
dentárias ântero-posteriores.
REFERÊNCIAS
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2001
Autores:
TANAKA, Orlando (*); KOWALSKI, Romeu V.(**); MELLO, Guilherme. S(**).;
FONTANA, Maria L.S.S(**).
(*)Professor
Titular do Centro de Ciências Biológicas da Saúde
- Curso de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica
do Paraná - PUCPR. (**)Pós-Graduandos do Programa
de Pós-Graduação em Odontologia - Mestrado
em Ortodontia da PUCPR
LEGENDAS:

Figuras
1A. Vista frontal em máxima intercuspidação
habitual. Mordida cruzada posterior direita envolvendo o incisivo
lateral superior direito. Dentição mista.

Figuras 1B. Vista lateral direita. Mordida cruzada dos dentes 16,55,54,53
e o incisivo lateral.

Figuras 1C. Vista oclusal da região ântero-superior.
Extensão da barra estabilizadora do disjuntor palatal apoiado
na superfície palatina do incisivo lateral em mordida cruzada.

Figuras 1D. Vista frontal após a disjunção
palatal. Relação transversal da maxila e mandíbula
corretas.

Figuras 1E. Vista lateral direita. Descruzamento do 1o molar e incisivo
lateral permanente e molares decíduos.

Figuras 1F. Vista oclusal após o descruzamento do incisivo
lateral. Remoção da extensão da barra estabilizadora
sobre o incisivo lateral.

Figuras 2A. Vista frontal inicial. Mordida cruzada dos 62,63 e 64.

Figuras 2B. Vista oclusal inicial. Presente os dentes 16,55,54,53,12,11,21,22,62,63,64,65
e 26. Linguo-giroversão dos 12 e 22. Hemi-maxila esquerda
contraída.
Figuras 2C e 2F. Vista oclusal após a remoção
do disjuntor. Esfoliação fisiológica do canino
superior direito.

Figuras
2D. Vista frontal após a remoção do disjuntor
palatal. Linhas medianas corretas devido a agenesia de um incisivo
inferior.

Figuras 2E. Vista oclusal na fase de contenção do
disjuntor palatal. Maxila expandida e a movimentação
dos incisivos laterais em direção à linha de
oclusão. Esfoliação fisiológica do incisivo
esquerdo decíduo.

Figura 2G. Vista aproximada (de baixo para cima) da região
anterior antes e após a disjunção palatal.
Figura 2H e 2I. Vista aproximada da hemiarcada superior direita
e esquerda antes da disjunção palatal.

Figuras 2J. Vista aproximada (de baixo para cima) da região
ântero-superior ilustrando a movimentação espontânea
do incisivo lateral superior esquerdo em direção à
linha de oclusão.
Figuras 2K e 2L. Vista aproximada da hemiarcada superior direita
e esquerda após a disjunção palatal. Vide o
posicionamento dos incisivos laterais, próximo à linha
de oclusão.
Figuras 2M e 2N. Vista oclusal aproximada da região ântero-superior
antes e durante a fase de contenção do disjuntor palatal.
Vide o posicionamento dos incisivos laterais, próximo à
linha de oclusão.
Figuras
3A, 3B e 3C. Mordida cruzada do incisivo lateral superior direito
(12). Dente 12 em linguoversão. Antes da disjunção
palatal e correção da mordida cruzada posterior direita.

Figuras 3D, 3E e 3F. Movimentação do incisivo lateral
superior direito (12) para a linha de oclusão sem a interferência
direta de forças ortodônticas A ponta da cúspide
do canino inferior direito decíduo (83) foi levemente desgastada.
Fase após a disjunção palatal.
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