O DILEMA DOS DIASTEMAS INTERINCISIVOS SUPERIORES EM ORTODONTIA
KREIA,
Tatiana Banzatto; GUARIZA FILHO, Odilon; TANAKA, Orlando
A
oclusão dentária normal é um complexo estrutural
formado fundamentalmente pelos dentes e maxilares, caracterizado
por uma relação normal dos planos inclinados oclusais
dos dentes, que se encontram situados individualmente, e o conjunto,
em harmonia arquitetônica com os ossos basais e a anatomia
craniana15. Tal harmonia e equilíbrio podem inexistir devido
a ausências dentárias; giroversões; apinhamentos;
alterações na morfologia; overbite e overjet acentuados
e diastemas entre os incisivos superiores.
O
diastema pode ser definido como sendo o espaço entre os dentes
ou a ausência de contato entre dois ou mais dentes consecutivos
(Fig. 1), ocorrendo em qualquer lugar na arcada superior ou inferior,
mas principalmente entre os incisivos centrais superiores. Podem
ser divididos em diastemas fisiológicos, patológicos
e os provocados em conseqüência da disjunção
palatal1,3. Os patológicos subdividem-se em localizados e
generalizados.
FIGURA
1 - Diastema inter-incisivos centrais superiores

FIGURAS
1A- Diastema patológico 1B- Diastema fisiológico
Quando
ocorre entre os incisivos centrais superiores, é uma das
maloclusões que mais preocupam os pacientes, por estar em
uma região tão desagradavelmente visível. Funcionalmente
reduz muito pouco a eficiência mastigatória, sendo
o tratamento exclusivamente estético e psicológico10
(Fig. 2).
FIGURA
2 - A linha mediana e o fechamento do diastema

FIGURAS
2A- A linha mediana superior coincide com a superfície mesial
do incisivo central direito. 2B- Aplicação do sistema
de forças movimentando os incisivos central e lateral esquerdo
2C- distribuição dos diastemas e preparação
para a inter-relação com a Dentística Restauradora.
Existem
diastemas que fazem parte do desenvolvimento normal da dentição
e da oclusão. Na dentição decídua é
normal e desejável. Tem-se os espaços primatas, entre
o incisivo lateral e o canino na maxila, e entre o canino e o primeiro
molar na mandíbula, e os arcos do tipo I de Baume, caracterizando
por diastemas generalizados entre os dentes.
Um
tipo de diastema que preocupa os pais e muitas vezes é incorretamente
diagnosticado como patológico, ocorre durante a irrupção
dos incisivos centrais superiores permanentes, em que se observa
um espaço entre os mesmos, iniciando a fase do "patinho
feio" que, na maioria dos casos, persiste por um tempo de 3
ou 4 anos. O seu fechamento não ocorre antes da irrupção
dos caninos permanentes, e é o chamado diastema fisiológico,
normal no contexto do desenvolvimento da dentição
e da oclusão2 e, até os caninos irromperem, é
difícil de se ter certeza se o tratamento será necessário12,
13.
Na
dentição mista, a freqüência do diastema
interincisal imediatamente após a irrupção
dos incisivos centrais superiores é de 70% e, em 82% dos
casos ocorre o fechamento espontâneo sem nenhuma intervenção
mecânica12, 13, 14. Para Taylor18, a maioria dos casos de
diastema interincisal se autocorrige, sem nenhuma interferência
mecânica, onde o fechamento desses espaços antes da
irrupção dos caninos leva a um dano severo, porque
a verticalização prematura da inclinação
axial distal dos incisivos poderá dificultar a irrupção
normal dos caninos. Relacionando a incidência de diastema
com a idade, Taylor18 observou que à medida que há
maturação do complexo crânio-facial e evolução
da dentição e da oclusão, o diastema diminui
de tal modo que os 7% compreendidos entre os 12 e 18 anos de idade
seriam os diastemas patológicos, que necessitariam intervenção
mecânica. Portanto, o exame detalhado do paciente, exige sua
correlação com a fase do desenvolvimento da oclusão,
quando se analisa um diastema1.
O
freio labial permanece como um dos agentes etiológicos na
formação e manutenção do diastema na
dentição permanente (Fig. 3), sendo uma prega de membrana
mucosa ricamente vascularizada, tendo o tecido conjuntivo coberto
por epitélio4, e contendo uma quantidade variável
de tecido fibroso. O seu tamanho varia de indivíduo para
indivíduo, mas não deve ser denominado de "músculo"
ou "ligamento"5. Na fase pré-dental e na dentição
decídua, o freio está inserido na superfície
(região palatal do rebordo alveolar na linha mediana) e se
estende para cima, em direção à superfície
interna do lábio superior, de maneira que uma tração
do lábio superior promoverá um tensionamento dos tecidos
lingualmente localizados aos incisivos centrais superiores. À
medida que o desenvolvimento da dentição e da oclusão
acontece a inserção palatal, gradualmente, "sobe
ou migra" em direção do lábio e na dentição
permanente o freio encontra-se, normalmente, inserido a cerca de
0,5mm acima da margem gengival18. Freqüentemente, o freio labial
está confinado a uma faixa estreita e não é
forte o suficiente para impedir o posicionamento correto dos incisivos.
Portanto, em alguns pacientes, o freio apresenta-se firme, tenaz,
forte e atuando como uma barreira à migração
mesial dos incisivos durante a irrupção, mantendo
um considerável diastema6. Ainda hoje a controvérsia
persiste pois alguns profissionais insistem em considerar o freio
como anormal e que este deve ser removido cirurgicamente e há
os que asseguram que raramente tal procedimento deve ser realizado.
FIGURA
3 - Freio labial superior hipertrófico versus diastema inter-incisivos

FIGURAS
3A,3B,3C- Manutenção de perfeitos pontos de contato,
mesmo com um freio, aparentemente, hipertrófico.
Os
fatores etiológicos associados com os diastemas patológicos
incluem, ainda: agenesia e/ou microdontia de incisivo lateral superior;
presença de mesiodens; ausência de dentes devido à
perda por processo carioso ou problema periodontal; lesão
dos tecidos moles medianos ou intra-óssea; retenção
prolongada de dentes decíduos; fatores genéticos;
hábitos de sucção de dedos; macroglossia; postura
anormal da língua; discrepância entre as bases ósseas
e o tamanho dos dentes; discrepância de Bolton; fusão
imperfeita na linha mediana, sendo esses dois últimos os
mais comuns1, 9, 10, 12, 13.
Os
diastemas patológicos são basicamente de três
tipos: diastemas com os longos eixos dos incisivos paralelos entre
si; com uma divergência entre os longos eixos dos incisivos
e com inclinação labial exagerada dos incisivos superiores1.
No primeiro tipo, quase sempre a etiologia pode estar associada
à presença de mesiodens; agenesia e/ou microdontia
dos incisivos laterais; imperfeição na coalescência
da rafe mediana. A segunda situação, normalmente,
ocorre na presença de freio labial volumoso e no terceiro
caso, os incisivos encontram-se muito inclinados labialmente, como
nos casos com overjet acentuado associado, freqüentemente,
a lábios hipotônicos1.
Há
casos em que mesmo tendo sido corretamente diagnosticados e planejados,
o aparelho ortodôntico corretamente instalado e o tratamento
ortodôntico devidamente executado, a Ortodontia, isoladamente,
não consegue a adequada e desejada finalização.
Faz-se necessário o inter-relacionamento com a Dentística,
Periodontia, Implantodontia e a Prótese, para se alcançar
os resultados satisfatórios em relação à
estética, função, saúde e estabilidade.
Dentre as opções de tratamento ortodôntico estão
a manutenção, abertura ou o fechamento dos espaços,
associado ou não à extração de dentes
inferiores.
As
opções para o fechamento dos diastemas são
várias, entre elas cita-se: tratamento ortodôntico,
para diastemas maiores que 3,0mm; facetas laminadas em cerâmica;
fechamento por meio de coroas de porcelana; fechamento somente com
resina composta, para diastemas variando de 0,5mm a 3,0mm; combinação
de fechamento de espaço com facetas diretas de resina composta,
nos casos de dentes desalinhados, mudança de cor do dente
ou para dentes mais alongados; e combinação de fechamento
de diastema com gengivectomia/gengivoplastia, nos casos em que seja
necessário alongar a coroa dos dentes8, 9, 11, associado
ou não à Ortodontia.
Freqüentemente,
as linhas medianas apresentam-se desviadas nos casos envolvendo
diastemas inter-incisivos superiores e, o paciente, em sua rotina
diária, torna-se apto a observar, comparar e questionar,
baseado em parâmetros próprios e populares, o equilíbrio
e a harmonia facial. Nestes casos, o diagnóstico clínico
deve ser realizado no plano frontal, e é melhor avaliado
com o paciente sentado na cadeira odontológica ou de pé.
O profissional deverá examiná-lo posicionando-se em
sua frente. Uma alternativa é reclinar o paciente e examinar
o plano frontal posicionando-se atrás da cabeça do
paciente. O primeiro passo é estabelecer a linha mediana
facial da ponta da cabeça até a ponta do mento. Essa
linha mediana pode ser estimada mentalmente ou pode-se utilizar
um segmento de fio dental esticado firmemente ao longo do plano
médio sagital. Devido à ponta do nariz estar freqüentemente
desviada, deve-se evitar usá-la como referência. O
fio dental deve bissectar os olhos, o filtro do lábio superior
e o mento. As distâncias devem ser comparadas, em relação
às estruturas bilaterais, com a dos olhos, sobrancelhas,
zigoma, lábios, narinas e a do ângulo goníaco.
A relação dessa linha mediana facial com a linha mediana
dentária maxilar e a linha mediana dentária mandibular
deve ser observada7. Ou, simplesmente utilizar como parâmetro
o vértice do tubérculo do lábio superior (filtro
ou cupid's bowl), os incisivos centrais superiores e inferiores17.
O
tratamento dos diastemas além de ser individualizado, requer
domínio da mecânica ortodôntica traduzida na
aplicação do sistema de forças, e também,
o conhecimento dos princípios gerais de etiologia, diagnóstico
e prognóstico são importantes, mais do que o próprio
tratamento, e devem ser complementados pelos exames radiográficos
e pela anamnese, pois nos casos genéticos, para o fechamento
do diastema e a manutenção dos pontos de contato,
a colagem de barra lingual se faz necessária devido à
forte tendência para reabertura do espaço, mesmo após
o fechamento ortodôntico e retenção/contenção
prolongada do espaço fechado e, até mesmo, quando
a remoção de tecido conjuntivo e epitelial da região
da falta de coalescência na região do septo inter-dentário.
A fase de contenção é de grande importância,
pois o periodonto e regiões adjacentes apresentam-se em estado
de reorganização. A contenção ou estabilização
deve ser mantida até que os tecidos voltem a seu estado normal.
Entretanto, se os fatores que causam o diastema não foram
eliminados em sua totalidade, a única maneira de prevenir
a recidiva é manter esta contenção o maior
tempo possível (Fig 4).
FIGURA
4 - Maloclusão Classe II,1, overjet e ovebite exagerados

FIGURAS
4A e 4C- Overjet e overbite exagerados associado à genética
4B- Após o tratamento ortodôntico 4D- Colagem de barra
lingual entre os incisivos centrais.
Diastema
e maloclusão em geral, podem se referir a uma variedade de
posicionamentos não desejados que vão do mais simples
aos mais complexos. Assim sendo, o ortodontista, visando atingir
os seus objetivos, deve reconhecer e empregar o A,B,C,D da Ortodontia,
que é parte integrante dos seguintes vocábulos: (A)parelho,
(B)om senso, (C)ooperação e, principalmente, (D)iagnóstico,
os quais representam o domínio dos alinhamento, nivelamento,
retração, finalização e contenção
dos dentes em seus mínimos detalhes16.
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Publicado
no Livro: Nova Visão em Ortodontia e Ortopedia Funcional
dos Maxilares. São Paulo: Livraria Ed. Santos, 2002, p. 907-911. |