| EQUILÍBRIO
FACIAL: DE ONDE E POR QUE ?
É
importante entender a história. No caso, a história
de um pedaço, de uma fase da Ortodontia, porque para se entender
o que está acontecendo no presente, ou o que irá acontecer
no futuro, é necessário analisar o passado.
(Oliver Wendell Holmes)
No
passado havia uma escola não extracionista, a escola de Angle
(Edward Hartley Angle 1/6/1855 a 11/08/1930) que se baseava nos
conceitos de que o melhor equilíbrio, a melhor harmonia
e a melhor proporção da face (Angle, 1907) eram
determinados pela teoria criacionista: se Deus havia dado ao paciente
32 dentes, a busca da beleza era o de que não importava como
o paciente ficaria, desde que todos os dentes estivessem presentes
na boca.
Porém,
no início de sua atividade clínica, Angle preconizava
a exodontia de dentes em alguns casos, seguindo as orientações
de Kingsley (Norman Williams Kingsley 2/10/1829 a 1913) a
quem admirava.
Em
1887, Angle publicou no Ohio Journal of Dental Science um artigo
sob o título: Notas em Ortodontia com um novo sistema para
a regularização de dentes, logo após a conclusão,
em 1878, de seu curso de Odontologia, na Pennsylvania College of
Dental Surgery. Já em 1887, era chefe da cadeira de Ortodontia
da Universidade de Minesota. O seu sistema para retrair caninos,
nos casos de extrações de dentes utilizava molas,
anéis, torno, tubos e parafusos. Em 1887 publicou a primeira
edição de seu livro que se resumia a um livreto de
poucas páginas. Em 1898 publicou a sua 5a edição
e em 1900 publicou a 6a edição. Em 1907 publicou a
7a e última edição, sendo esta totalmente revisada.
Organizou a primeira escola de Ortodontia, a escola Angle de Ortodontia
em St. Louis, sem vínculo com universidades.
De
1900 a 1928 Angle foi coordenador ativo de sua escola. Inicialmente
em St. Louis, mais tarde em New London, Connecticut e, finalmente,
em Pasadena, California. Mais de 150 profissionais tornaram-se ortodontistas
a partir da Escola Angle de Ortodontia. Fundou-se em 1901, sob sua
égide, a Associação Americana de Ortodontia.
Inicialmente
o maior interesse de Angle foi a prótese, e ele ensinou essa
especialidade nos departamentos das escolas de Odontologia da Pennsylvania
e Minesota por volta de 1880. Sua crescente dedicação
à oclusão dentária e ao tratamento necessário
para se obter uma oclusão normal, levou-o ao desenvolvimento
da Ortodontia como uma especialidade, sendo considerado o pai da
Ortodontia moderna.
Em
1890, CASE (Calvin S. Case 24/04/1847 1923), discípulo de
ANGLE, apresentou trabalho no Congresso de Chicago e no Congresso
de Columbia Dental Association de 1893, expondo casos ortodônticos
tratados com o uso de elásticos intermaxilares. Prescrevia
o seu uso e decantava a sua originalidade. A literatura ortodôntica
relata a introdução dos elásticos intermaxilares
por BAKER em 1893. os quais, na realidade, TUCKER,1853, já
recomendava para a correção de maloclusões.
No
início havia muita admiração e respeito mútuo
entre CASE e ANGLE, porém discussão e rivalidade iniciaram-se
quando Angle afirmou que BAKER introduzira o uso de elásticos
intermaxilares. Isto magoou Casse profundamente, uma vez que ele,
Case, já trabalhava com a técnica de elásticos
havia oito anos e se considerava o seu introdutor, o pai da idéia
dos elásticos. Tal divergência culminaria com um debate
na National Dental Association, atual American Dental Association.
O
debate foi publicado inicialmente no Dental Cosmos. Foi reimpresso
no American Journal of Orthodontics. Nesse Congresso, o trabalho
apresentado por CASE teve como título: A questão das
extrações em Ortodontia. As discussões foram
exacerbadas, com os seguidores de ANGLE atacando as posições
de Case e vice-versa, (Angle não participou do debate). chegou-se
ao extremo de se invocar dogmas religiosos, sendo Deus invocado
por várias vezes, denotando o antagonismo e a repulsa, de
natureza pessoal, entre CASE e ANGLE. Tudo se dera por causa dos
elásticos).
A
mudança de opinião em relação à
extração ou não extração está
baseada na premissa de que o estudo da Ortodontia está ligado
à arte relacionada com a face humana. O objetivo do tratamento
é obter o melhor equilíbrio, a melhor harmonia e as
melhores proporções faciais possíveis, porém
os alunos de ANGLE da primeira turma consideravam estes princípios
muito vagos e decidiram solicitar maiores informações
acerca de regras e parâmetros para que estes fossem utilizados
como guias para se alcançar os referidos objetivos.
Foi
diante desta questão colocada pelos alunos que ANGLE procurou
WUERPEL, Edmund H, diretor da Escola de Belas Artes da Washington
University em St. Louis, Missouri. WUERPEL, como artista, considerou
a pergunta de ANGLE pouco procedente e procurou definir um conceito
com base na individualidade, segundo o qual cada um é belo
em si mesmo. Definiu a questão da seguinte forma afirmando
que ....para se definir uma lei ou princípio a fim de ser
transmitido para os alunos, visando a sua aplicação
nos tratamentos, preconiza-se que o melhor equilíbrio, a
melhor harmonia e as melhores proporções da face e
sua relação com as demais estruturas requerem que
exista a totalidade dos dentes, e cada dente deverá ocupar
sua posição normal, possibilitando a oclusão
normal.
Acredita-se
que possivelmente, deva ter havido o seguinte diálogo:
Estava
Wuerpel em seu escritório quando um cavalheiro o inquiriu:
é o senhor Wuerpel?. "Sim" respondeu Wuerpel.
Angle:
tem tempo para conversar comigo ?
Wuerpel:
Sim, eu sempre tenho tempo para conversar, querendo dar a
entender que ele sempre tinha tempo para deixar outra pessoa falar.
Angle disse que era um ortodontista, porém Wuerpel nunca
ouvira falar de um ortodontista antes e nada disse a respeito de
sua ignorância.
Angle:
Tenho uma turma de alunos (Wuerpel achou que fosse a primeira),
na grande avenida e, nesta manhã, fui surpreendido com uma
proposição que não pude explicar. Eu quero
que você me forneça as regras que determinem o que
fazer exatamente em certas circunstâncias.
Wuerpel
não sabia que regras eram aquelas a que Angle se referia.
Angle tirou uma fotografia da cabeça da vênus de Milo
e disse: o que você acha desta fotografia?
Wuerpel:
disse: é um bom tipo, um belo modelo de cabeça grega.
Não tão boa como algumas, mas um bom tipo de cabeça
grega.
Angle:
O que a faz tão boa ?
Wuerpel:
É balanceada, equilibrada - He is balanced. Acho que foi
a primeira vez que Angle ouvira o termo balanced.
Angle:
O que você quer dizer com equilibrada?
Wuerpel
explicou: Em desenho, esboço e pintura, certas proporções,
certas linhas estão relacionadas e, a menos que estas linhas
e proporções estejam em acordo, as coisas estarão
desequilibradas - "unbalanced". Se uma coisa está
equilibrada, se uma parte da coisa está equilibrada, se estão
em acordo, seja em pintura ou na vida, as coisas seguem mais suavemente.
Angle:
Bem, explique-me o que você quer dizer com a cabeça
estar equilibrada.
Wuerpel
mostrou as superfícies, os ângulos e os planos, assim
denominados por ele, naquela cabeça grega e disse: O volume
aqui e ali, com aquela outra região, estão em equilíbrio
com o volume de cima. Devemos ser sensíveis a proporções.
Wuerpel explicou tudo isto a Angle que ficava cada vez mais motivado.
Angle:
você poderia me fornecer uma regra pela qual, eu mostrando
uma face para uma pessoa, ela possa determinar o que, onde e porque
estaria errado?.
Wuerpel
respondeu: Não. Não há duas faces iguais. Existem
certos tipos de face com pontos semelhantes, e, nestes tipos, sabemos
que certas relações se apresentam mais ou menos em
equilíbrio e um detalhe particular pode ser perfeito, porém
não existem duas faces iguais. Você não
pode analisar faces e classificá-las mediante um único
detalhe. É impossível.
Angle:
Bem, você poderia escrever isto na forma de uma lei.? De maneira
que eu possa transmitir aos meus alunos de que a face deste ou daquele
paciente necessita para se tornar harmônica e em que determinados
tipos de face o queixo necessita ser empurrado para trás
e em outros movimentado para frente, etc ?.
Wuerpel
disse que não, percebendo que Angle ficara muito nervoso.
Foi o ponto mais alto da discórdia que se desencadeara entre
ambos.
Ao
sair, Angle disse: Deus, não posso dar isto aos meus alunos.
Não sei nada acerca disto.
Wuerpel
complementou: Bem, isto está evidente.
Angle
estava derrotado, cabisbaixo disse para Wuerpel: você não
me conhece. Não sabe o que estou tentando fazer. Não
sou muito conhecido aqui. Você poderia vir a minha escola,
amanhã de manhã e contar para os estudantes
exatamente o que você me contou ?
Um
impulso levou Wuerpel a concordar com o pedido e por um punhado
de anos continuou a relatar o fato assim como vocês acabaram
de o ler.
Wuerpel,
reforçando as divergências com Angle, acreditava na
teoria Criacionista. Se Deus havia colocado 32 dentes na boca dos
indivíduos, esses 32 dentes deveriam funcionar e se havia
maloclusão, seria devido a fatores locais, cabendo ao ortodontista
a tarefa de eliminar essas causas e restabelecer a oclusão
normal.
Já
Case acreditava na teoria Evolucionista defendida por Darwin. Acreditava
na hereditariedade como fatores etiológicos de maloclusão.
As
opiniões de Angle e de seus seguidores prevaleceram. Case
perdeu a briga e praticamente foi sufocado pelas suas idéias.
Houve um longo período na história em que as extrações
de dentes estavam condenadas nos tratamentos ortodônticos
BEGG (Percival Raymond) foi aluno de Angle em 1924, e em 1925, iniciou
tratamento sem exodontias. Não satisfeito com os resultados,
em 1928 iniciou tratamentos com extrações e desgastes
interproximais.
Nos
anos 30, houve o advento da cefalometria e nos anos 40, Tweed (Charles
H. 1928 a 11/1/1970) lançou a escola extracionista. Em breve
mais assuntos acerca desta era, em artigo específico).

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