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O
BONECO
Um
dia vovó comentou que os doces feitos por ela e minha mãe
naquela manhã haviam desaparecido do armário. E não
sabia o que tinha sido feito deles.
Embora
nenhuma das duas parecesse de qualquer forma preocupada com a ocorrência,
eu imediatamente disse:
-
Foram roubados.
Elas
me olharam surpreendidas, mas foi vovó quem estabeleceu conversação
comigo.
-
Você tem certeza? ela perguntou.
-
Tenho! Foi o Calucho quem me contou.
-
Minha filha, disse ela tranqüila, passando o seu braço
pelo meu, venha até meu quarto. Quero lhe mostrar uma coisa.
No
quarto ela abriu a gaveta de uma cômoda e tirou, lá
de dentro, um boneco que eu nunca tinha visto.
-
Veja como está bem vestido!
Eu
não estava entendendo. Aquilo nada tinha a ver com o caso
dos doces. Ela prosseguiu:
-
Vá dizendo o que mais lhe chama a atenção neste
boneco.
-
Tem uma roupa, uma camisa linda! respondi ao observar os punhos,
o peitilho e o colarinho impecáveis.
Assim
que terminei de falar, minha avó tirou o paletó do
boneco. Caí na gargalhada quando vi que da impecável
camisa só havia os punhos, o peitilho e o colarinho.
Mas,
de súbito, compreendendo, me tornei muito séria.
E
vovó, abraçando-me a sorrir, disse concluindo:
-
Veja você como são as coisas. A gente só pode
crer naquilo que vê. E do que vê, muitas vezes é
preciso acreditar apenas na metade. Você percebeu por que?
Já
se passaram muitos anos. Mas, sempre que sou levada, por certa irreflexão
tão comum nos seres humanos -, a julgar fatos ou pessoas
pelas aparências, vem-me à lembrança a impecável
camisa daquele boneco da vovó.
RODRIGUES,
Wallace Leal V. E, para o resto da vida... 3. ed. São Paulo
: Casa Editora O Clarim, 1992. p.23, 24.
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